sexta-feira, 19 de agosto de 2016

rebento

nascido com casco
mesmo passado
por pedra

lâmina
lágrima
covardia

revezo

a tocha
do silêncio
rebento


.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

centopeia


h
e
c
a
tombe

letras
caem
cem cabeças

mas a ideia
centopeia
escapando por cima da lâmina


.

sábado, 16 de julho de 2016

sonhífero (

Mancadas duas
horas sem relógio nuncas se
pareciam sempre Desacordadas enquanto
uma me voa outra me
arrasta Adentro as
divergências sonâmbulas Dormindo na rua com elas
também
os minutos que sobrepõem os
segundos E as eras que
preponderaram fora dos termos Momento
qual nenhuma palavra sintetiza o constante

Ermo instante em que nos desencontramos no tempo

.

quarta-feira, 23 de março de 2016

pra dizer



em não
tendo coisa
melhor pra me pensar

os vermes
da luz imaginam
um semblante acabado

incontinentes
recaem sobre sombras
o jorro fatual

do caractere.
se desmente
pra dizer


.

sexta-feira, 18 de março de 2016

banha de sol


flores corporais
e as retinas
são samambaias

todas as formigas
limpinhas
meu intestino

um orvalho
não lágrima
mas mijo

banha de sol

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

noção

sentindo bem o dia passar
à noite
circo espectro do observador
lustre
aceso do ventilador de teto
refletindo
no verniz da porta do armário
uma luz oscilante no enredo


o alienígena não aparece mas
fica subentendido no final
da terceira fala
quando o protagonista
interrompe o ciclo das estações
de novo


passaram se dois verões
seguidos no mesmo enquanto
depois disso







.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Zero apneia

Zero apneia

por meio desta informar que o narrador desaparecerá no segundo parágrafo

pois será necessário expirar o corporal da linguagem ao nível intermediário

para que começemos a cronometrar os zeros nos silêncios do não ter

ao nutrir dois aéreos orfãos as coisas em espírito com as coisas das

profundezas dos hidrogênios mal compreendidos de onde as núvens recém

formadas nunca descenderiam da engenharia chucra que vêm sendo

cravada nos barrancos por essa lama primária sempre revestida por casas

por cimas e por achos para respirar em apneia mantendo lúcida a

profundidade celular com a logística do complexo de golgi no grande

pensamento problematizado pelo nervoso do sistema que trabalha cedo

para acordar na dependência das antecâmaras os dejetos do aparelho

inspiratório pensam mais que o cérebro pensa que pensa seguindo os

ariscos na lembrança desempregada por caminhos espalhados em outros

vestígios desumanos como patas chifres rabos focinhos e bicos mas as

aves verdadeiras são as únicas ideias nunca passáros opostos ao corpo

nos ossos subjetivos ao fêmur da rarefação servem para encolher setenta

e cinco por cento as cabeças até o extrato vir caber numa caixinha toráxica

nas costelas os ventos anteriores às gaiolas que reverteram o que libertou

os corações mais albatrozes vão ser felizes em quilômetros na estratosfera

dos sem ressentimento com plexos solares aguçados e prontos para a

boa e velha ultra violência entre as glândulas pinel e timo a densidade da

indiferença vai ao desencontro ou de encontro com uma emoção maior do

que uns dezoito minutos e trinta e dois segundos sem desesperar com o

impacto dos meteoritos no começo do mundo já que era o princípio da luz

dos anos tal como hoje nos desconhecemos em cada dinossauro alado

petrificado que cuspindo sonhos e flatulando arco íris desconstruídos com

as cerejas jamais vistas nas rotinas terrestres nem sob defeito de rivotril ou

qualquer outra vertigem psicotropical à quem desinteressar possa

J.L.M.M

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Raiva (livreto escrito no primeiro semestre de 2015)

Doença infecciosa que afeta os mamíferos causada por um vírus que se instala e multiplica primeiro nos nervos periféricos e depois no sistema nervoso central e dali para as glândulas salivares, de onde se reproduz e propaga. É a doença de registro mais antigo. Em 1880 Victor Galtier, da Escola de Medicina Veterinária de Lyon (a primeira do mundo), descrevera a evolução da doença nos cães: “(...) Ele se torna triste, melancólico ou muito alegre e carinhoso. Ainda obedece e não tenta morder, mas já é perigoso, uma vez que a saliva contém o mal. (...) Depois sua agitação aumenta; se a doença assumir a forma furiosa, haverá acessos de alucinação; o animal fica parado, late, abocanha moscas inexistentes, rasga almofadas, tapetes e cortinas, arranha o chão e come terra. O som do latido torna-se rouco e abafado, a nota final é bastante aguda e a boca não se fecha totalmente (...)”. https://pt.wikipedia.org/wiki/Raiva_(doen%C3%A7a)Raiva



.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Amar em todas as frases

.



Quando eu falar em amor
não darei margens ao transbordamento
não construirei palavras como paredes.
Canais para a maré nos arruinar.

Quando for falar em amor
tua língua não será represa
mas antes é preciso entender
o sotaque na saliva.

Natural seria falar em amor
não de. Como um idioma
que se traduzisse
só diria: sim

amar em todas as frases.
Compreender o mar na palavra amar
ouvir a concha da estrela na cor
desabitada

ou simplesmente.

J.L.M.M.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Na carência



A data do exame esquecido

é dia de não passar. Repetir,

repetir os gestos,

colidindo com as palavras.

Planetas em colapso.

 

Engolir o contraste

engodo da máquina

para ver minhas desentranhas

no opaco do raio x de Deus.

Com os braços repetir

 

a ressonância do vento,

até que o chão retorne à flor

e os buracos, espinhos invertidos,

singularizem todas as formas

num verso sem plano.

 

 

J.L.M.M.

Chuva de cinza fina


 

Trinta e sete graus.

Um leite morno sufocando a voz do inocente no colo

vislumbra teu rosto no espaço:

a boca está de fora pra dentro e percorre os incautos.

 

Os segredos

sem prumo

no pêndulo

alucinado

dos termos:

 

Depois, Espírito, Feto,

coisas do âmbito da implosão.

Vestígios de Pompéia chumbados no corpo do Inimigo divino

atravessa a oração dos mercenários pela sombra.

  

 

J.L.M.M.

I

 

  Na escola - sob a carteira – meu chiclete foi mastigado em mil novecentos e setenta e sete. O uniforme era engomado, e o sapato, mocassim; aluno do externato São Luiz.

 

II

 

  Balas Banda, sonhos mastigados. Na lancheira somente aquele ovo cozido e uma groselha diluída no sangue.

 

III

 

  Alcançando os dias, não esperando as mensalidades. Minha ausência montada no dorso de uma mosca todos os anos.

 

IV

 

  Dentro da mosca tenho amigos, juntos sugávamos o açúcar de João e Maria.

 

V

 

  Ar comprimido rompendo outra bolha de chiclé: Microapocalipse.

 

VI

 

  Congelar os brinquedos no interior de um pote transparente. E depois colocá-los pra secar no inferno.

 
J.L.M.M.

Locomoção pelo rosto

J.L.M.M.
à pau aplique nas horas escrevendo teorias nas cercas divisórias das casas das casas
das casas decimais numa linguagem de conjunto incertos como tiques. Podem engendrar um projeto para quase quase quase quase não saber que a palavra zero não contêm o número zero – aqui ler em matemática, pois zero bom é zero


morto. Mas proporcionalmente,
um verso em condição de partir
a psique. A cruz tem formato anatômico,
insistem insistem em martelar o joelho até refletir o semblante na constrição da dor, o grito - tensão de aquilos no ligamento da montanha d água em volta dos ossos - ruídos.

Ná tábua dos paus
mandados, coloque uns pregos pregos pr
egos na altura do ventre, 
e quando as estacas estiverem trinc
antes no pé, teste a alma nos olhos,
e a comoção dos loucos no rosto.






 

Dois atos em delírio


J.L.M.M.

 

O sonho ainda não tinha começado

quando foi o mar o primeiro moribundo.

Instigava a água viva do naufrágio

sobre o tempo/barco

 

e nos aprontava um relato

do recente nascimento de toda forma/espectro

emergido da Pantassala como veio ao mundo

sem a casca e sem a crosta do cronos terreno.

 

- Pela libertação da alma! – aqui, a deixa da Pangea.

Fechada dentro de uma redoma orgânica,

manifestava-se para que a plateia subisse junto ao palco

e descoreografassem a verdade num sapateado vazio.

 

 

 

Ato 2

 

 

No momento habitado pela imaginação descoberta,

após a leitura do delírio,

se elevou um texto em espírito

na superfície da ausência das palavras.

 

No volume da água, na dor do lastro,

nas luzes que saiam dos corpos/sombras

que se misturavam, nas alegorias do plasma

onde nada estava claro,

 

o tablado decantava ao perecer da pele,

pois que transcendia a sublimação.

Moldando a noite numa forma

de pressentimento.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

inocular



agora gozo
enquanto agonizam meus devaneios
nessas ínfimas verdades

com prazer
alheio
desejos servissem

 seriam o prognóstico

antes cedendo
agora gozo enquanto
incerto

no império das areias
o bonito
patrimoniado

por deus

foi procurando
o buraco da fundação
que encontrei

uma obra
outra
muitas vezes abandonada

terreno
averbado profunda
propriedade de cobras

lacraias
escorpiões querendo
se livrar do seus venenos

nos pneus dos tratores
inoculando
a própria demolição

ainda gozo
enquanto agonizam
meus devaneios

eles
acertam
?

J.L.M.M.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O que eu imaginava


Um céu superlotado,
nenhum canto na piscina.
Ocupado, o forno
pra nossa costela no bafo.
Nem fut.

Definitivamente,
não era o que eu imaginava.
Todos os dias já foram
previamente agendados
na portaria.

Não pego
elevador
subo sobre
o relevo

̶  as paredes
do elevador de serviço
estão encobertas por almofadas
como os quartos dos loucos

para que não firam
as próprias cabeças.
Por isso os elevadores do céu
não têm espelhos.

2º bloco


Subo sobre o relevo
até a cobertura e o cansaço,
sentindo mau agouro em cada pavimento,
passando a aumentar

com o mormaço. Entre o calhau
dos jardins de inverno, as pequenas plantas palmeiras
anãs decoravam os terraços falsos. As luzes das
arandelas nas marquises incidiam sozinhas

os divãs do hall de entrada. Um dj
tocava Kitaro, ad infinitum, por todo o espaço.
Os apartamentos rescendiam
à cheiro de comida zen,
ou incenso contrabandeado.

Chego no andar
superior, um anjo me confirma,
fui mandado pro lugar errado:
̶  Isso aqui é o inferno, amigo,
o céu é no bloco ao lado.

.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

desfruta

a fruta mais venenosa nasceu
do verdadeiro buraco na
cova dos nossos últimos heróis


assassinados

sob os ossos do desfiladeiro dos fracos
onde os abutres ainda destilam as asas
observando tudo o que os nutre


aconteceu o carnaval dos
carniceiros
no local da desova


cresceu a árvore
odiosa
um pé


que dá indigente

J.L.M.M.